Dr. Vinicius Silva Freire Alvarenga

Como escolher um Médico?

Escolher em quem confiar sua saúde é uma decisão de extrema importância, e que a maioria das pessoas não sabe como fazer de forma adequada.

Atualmente essa escolha é ainda mais difícil devido ao número alarmante de escolas médicas que funcionam em nosso país sem a mínima fiscalização de qualidade. Os maiores problemas dessas escolas são a falta de professores capacitados, a falta de campo prático para aplicar os conhecimentos teóricos e a falta de estrutura para as condições mínimas que um curso de medicina exige. 

Outra dificuldade enfrentada é a abertura de inúmeras “pós-graduações de fim de semana”, semelhantes a “venda de diplomas”. Após realizar esses cursos superficiais, muitos profissionais se anunciam como “especialistas” sem de fato serem especialistas. Para piorar a situação, as agências reguladoras de medicina no país têm dificuldade em fiscalizar esses falsos especialistas e os próprios médicos têm receio em denunciar tais práticas. 

Esse texto tem como objetivo ajudar na escolha de um bom profissional, expondo critérios e ferramentas que ajudam a aumentar a chance de ter sua saúde em boas mãos. Mas atenção, os caminhos para se tornar um bom profissional não são engessados e existem inúmeros excelentes profissionais que não seguem alguns dos passos desse texto. O objetivo aqui é simplesmente e ajudar a reconhecer profissionais que se aproveitam da ingenuidade de muitos pacientes. 

O primeiro passo é checar no site do Conselho Federal de Medicina – CFM ( https://portal.cfm.org.br/busca-medicos ) quais médicos estão efetivamente cadastrados na especialidade que você procura. Se a “especialidade” que você procura não está ali, então ela não existe, por mais que quem a divulgue afirme que exista. Você pode buscar um médico específico diretamente inserindo o nome dele, ou buscar todos na cidade que atendem na especialidade que você deseja. Veja abaixo como é simples: 

Após clicar em “BUSCAR” serão listados abaixo todos médicos que se encaixam na sua pesquisa. Atenção especial em checar o NÚMERO RQE, que garante que o médico é especialista no que diz que é. 

É recomendável que se faça isso mesmo para médicos que você recebeu indicação de um profissional de sua confiança. Existem “bolhas” de profissionais que trocam indicações, e se você estiver em uma bolha de falsos especialistas, dessa forma você saberá. 

Um próximo bom passo é buscar pela formação do médico. Isso não garante um bom atendimento, e existem vários excelentes centros de formação que não são “renomados”. Mas atesta que o médico teve contato com uma formação de qualidade, algo cada vez mais raro nos dias de hoje. Busque informações sobre os locais onde o médico fez suas especialidades. Muitas vezes houve passagem pontual por uma instituição, mas a formação não foi realizada ali, por mais que o nome da instituição esteja sendo usado pelo profissional. 

A maioria dos bons profissionais tem seu currículo exposto na plataforma lattes. ( https://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/busca.do?metodo=apresentar ). Na plataforma Lattes você pesquisa pelo nome completo do médico, e, caso seu médico não tenha doutorado acadêmico, lembre-se de selecionar o campo “Demais pesquisadores (mestres, graduados)”. 

Caso pesquise em redes sociais, muito cuidado para não se deixar atrair por números de seguidores, promessa milagrosas, “exames e reposições hormonais e de vitaminas que você precisa fazer” (que coincidentemente são vendidos na própria clínica do médico ou na farmácia que ele indica). Também não se deixe atrair por palavras como  “integrativa” ou críticas à “medicina tradicional”, termos como “medicina da longevidade”, “soroterapia”, etc. É importante ressaltar que não existe crítica da “medicina tradicional” a outras formas de cuidado, e que toda forma de cuidado é importante e tem o seu papel. No entanto, é frequente que pacientes assistidos por profissionais que se anunciam com tais termos sejam orientados a cessar e não valorizar terapias médicas consolidadas de alto impacto na redução de morte e controle de doenças, e isso é inaceitável! Em muitas situações, existe imenso viés financeiro ao invés de real preocupação com a saúde do paciente, muitas vezes com prejuízos financeiros e para a saúde, sem qualquer benefício. 

Existem muitos profissionais inventando doenças para vender a solução. Geralmente se utilizando de sintomas comuns como cansaço, insônia, vitaminas em níveis “subótimos/baixos”, queda de libido, e jogam com a melhora sintomática decorrente de efeito placebo (amplamente conhecido pela “medicina tradicional”) ou mesmo uma melhora que já iria ocorrer independentemente de qualquer tratamento, como acontece com inúmeras situações que melhoram independentemente do médico. A tentativa será te convencer de que a melhora veio após a venda de um soro colorido, por exemplo, vendido por altos valores na própria clínica. Muitas vezes não é realizada qualquer investigação séria das principais causas para os sintomas, e ao invés disso são solicitados dezenas de exames desnecessários. Ainda há o agravante de que muitos pacientes se sentem bem vistos quando são solicitados inúmeros exames. No fim, o resultado é uma terapia cara, ineficaz, com custos desnecessários para o paciente e para o sistema de saúde, e uma melhora de sintomas que, quando ocorre, ocorre por efeito placebo ou porque já iria melhorar mesmo independentemente de qualquer terapia, como é o caso de vários sintomas. 

Mas, voltando às orientações para escolha de um médico adequado, depois que você pesquisou no CFM, pesquisou as formações do médico, suas redes sociais, você pode ainda checar se esse profissional mantém relações com serviços acadêmicos, por exemplo participando da formação de novos médicos e novos especialistas, ou mesmo se ele faz publicações científicas, ou tem títulos acadêmicos como mestrado e doutorado. Tudo isso demonstra interesse em estar atualizado na medicina. Não é à toa que os profissionais dos melhores hospitais do país geralmente também têm funções e atendem em serviços acadêmicos. Por exemplo, muitos dos profissionais de hospitais como Sírio Libanês, Albert Einstein e HCOR trabalham também em instituições acadêmicas de formação médica como o Instituto do Coração/INCOR do Hospital das Clínicas da USP e o Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia, que são referências de cardiologia no país. 

Já durante a consulta, observe se o médico tem tempo para você, se ele está inteiro ali, realmente te ouvindo e não apenas te escutando, se há dedicação, se há tempo para você falar, para tirar suas dúvidas. Observe se não há “pressa” no atendimento, especialmente se houver salas de espera lotadas. Isso pode significar que o foco é em atender o maior número de pacientes no menor tempo possível, ou agendamentos excessivos para compensar faltas. Nessas situações, ter que “correr contra a agenda” pode significar um olhar menos atento aos detalhes importantes do seu caso.  

Por fim, nunca é demais buscar uma segunda opinião. Um bom profissional inclusive faz isso ao lidar com casos complexos e se sente confortável que você busque uma segunda opinião, pois sabe que faz parte do processo. Na cardiologia existe o conceito de HEART TEAM (time do coração), em que vários profissionais de diferentes subespecialidades da cardiologia e da cirurgia cardíaca se juntam para discutir o melhor tratamento para o paciente. Esse time é presente em hospitais de ponta e nos serviços acadêmicos, tendo grande impacto na escolha do melhor tratamento. 

Boas escolhas! 

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